É quase um milagre que ele esteja agora lá em cima, com o seu olhar ainda sereno, noventa carnavais nas costas, braços de concreto ainda abertos sobre o Brasil, impávido como quem foi visto subindo aos céus.” — Rodrigo Alvarez, Redentor (Globo Livros, 2021). A ideia de erguer um monumento religioso no alto do Corcovado remonta ao século XIX, quando o padre lazarista Pedro Maria Boss, missionário francês radicado no Brasil, propôs, por volta de 1859, a construção de uma grande estátua de Jesus Cristo. A proposta ganhou força durante o Segundo Reinado, em um contexto marcado por importantes transformações sociais. A Princesa Isabel, figura central na assinatura da Lei Áurea em 1888, que passou a ser chamada de “A Redentora”, foi cogitada como destinatária de uma homenagem em forma de monumento. No entanto, em um gesto de humildade e fé, a Princesa recusou que a estátua fosse dedicada a ela e sugeriu que a homenagem fosse feita ao verdadeiro Redentor: o próprio Cristo. Décadas depois, em 1922, por ocasião do centenário da Independência do Brasil, o então Arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Sebastião Leme, liderou a retomada do projeto. Sua iniciativa, com o apoio do Círculo Católico, ganhou contornos institucionais e simbólicos sob a liderança da Igreja Católica. Seria uma obra do povo brasileiro, fruto da fé e do esforço coletivo, com significado espiritual, cultural e patriótico. Em 1923, foi lançado um concurso nacional para a escolha do projeto arquitetônico, idealizado e promovido pela Igreja Católica.
O engenheiro Heitor da Silva Costa apresentou a proposta vencedora, com a imagem de Cristo de braços abertos, símbolo de acolhimento universal. O artista Carlos Oswald aprimorou o desenho final, e o escultor francês Paul Landowski modelou, em Paris, as mãos e a cabeça da estátua.
Toda a estrutura interna, de concreto armado — uma ousadia para a época —, foi calculada pelo engenheiro francês Albert Caquot. A construção, iniciada em 1926, foi uma verdadeira cruzada de fé. Milhares de brasileiros contribuíram com doações, e mulheres da sociedade carioca participaram diretamente da aplicação das pastilhas de pedra-sabão, nas quais gravavam, no verso, os nomes dos doadores que ajudaram a viabilizar a obra.
O mestre de obras Heitor Levy chegou a morar no topo do Corcovado durante o período da construção. Em 12 de outubro de 1931, Dia de Nossa Senhora Aparecida, o monumento foi solenemente inaugurado com uma missa solene, presidida pelo Cardeal Leme e acompanhada pelo então presidente Getúlio Vargas, diversas autoridades civis e militares, e membros da sociedade. Desde aquele dia, o local foi consagrado como o primeiro templo religioso a céu aberto do mundo. Desde então, o Cristo Redentor está sob os cuidados da Igreja Católica, por meio da Arquidiocese do Rio de Janeiro, que responde por sua manutenção, salvaguarda e preservação espiritual e física. Em quase um século, o Santuário Cristo Redentor realiza diariamente missas, batizados, casamentos e outras celebrações litúrgicas, consolidando ainda mais o local como um espaço sagrado, de vivência da fé e de comunhão espiritual. É importante frisar que o monumento já existia e estava plenamente consolidado como espaço de fé e peregrinação décadas antes da criação do Parque Nacional da Tijuca, em 1961. Os acessos e as estruturas do Alto Corcovado foram erguidos por iniciativa da Igreja, configurando um território sagrado que transcende os limites administrativos e ambientais impostos posteriormente.