De colônia agrícola à comunidade conservacionista: uma história de transformação, cuidado e permanência A história desse território onde se encontra a comunidade da AAI começa em 1908, com a criação da Colônia Agrícola de Itatiaia pelo governo federal. O projeto previa a ocupação do território por imigrantes europeus, que adquiriram lotes e se estabeleceram com foco na agricultura. Em 1916, a colônia foi emancipada e passou à administração da prefeitura as estradas e o uso e ocupação do solo. Em 1927, foi extinta, passando a ser chamada como ex- Núcleo Colonial de Itatiaia (ex-NCI). A partir de 1915, com a decadência do projeto agrícola, marcada pela falta de apoio técnico e de estrutura, começaram a chegar novas famílias brasileiras, que transformaram radicalmente o território. As primeiras famílias foram os Spanner e os Zikan. José Francisco Zikán foi um dos principais entomólogos do Brasil, responsável por grande parte da coleção de insetos do Museu do PNI. Ambas as famílias tiveram membros que chegaram à direção do Parque Nacional do Itatiaia (PNI), reforçando os laços entre comunidade e conservação ambiental. A partir dessas famílias e todas as outras que adquiriram legalmente os lotes dos colonos, iniciaram um processo espontâneo e pioneiro de reflorestamento, proteção das nascentes e iniciaram o trabalho de turismo ecológico. Dois dos cinco hotéis do território foram inaugurados em 1931, antes mesmo da criação do parque, reforçando o papel da comunidade como berço do ecoturismo no estado do Rio de Janeiro. Em 1951, foi fundada a Associação dos Amigos de Itatiaia (AAI), cuja origem está diretamente ligada à comunidade e ao próprio parque. O patrono da associação foi o então diretor do PNI, Paulo Cesar Campos Porto, também morador local. Desde sua fundação, a AAI defende o seu código de ética territorial, com compromisso explícito com a proteção das áreas verdes e a convivência respeitosa com a montanha.A conservação da serra sempre foi construída com recursos e esforço da própria comunidade. Os moradores: abriram e mantiveram trilhas, mirantes e vias de escalada dos atrativos naturais, esses todos nas propriedades particulares, sempre aberta a visitação. Custearam a instalação da energia elétrica para findar com o uso de diesel nos geradores, iluminação pública e sistema de telefonia. Organizaram e mantém até hoje o sistema de abastecimento de água e cada propriedade tem a sua fossa, garantindo assim a qualidade da água que retornam para os rios. Os moradores eram os únicos no combate dos incêndios florestais até bem pouco tempo. Até a manutenção da parte não asfaltada da estrada (BR485) sempre oi mantida pelos hotéis.
Um dos mais conceituados grupos de excursionismo e montanhismo, criado em 1962, foi idealizado e criado pelas famílias Sapnner, Zikan e Simon. Eles foram responsáveis pela abertura e manutenção das vias de escaladas. Mas o legado dessa comunidade vai além da natureza. A região se tornou também um polo de cultura, espiritualidade e pensamento, que atraiu personalidades marcantes da história brasileira.
Viveram e se inspiraram aqui: o deputado federal Hélio de Almeida, defensor do desenvolvimento de Itatiaia, sua esposa reside até hoje em sua propriedade. O mestre indiano Jean-Pierre Basteou, um dos pioneiros a dar aulas de yoga no Brasil; O físico e cientistas César Lattes, tinha nessa região o seu refúgio natural, suas filhas ainda frequentam o local. A poetisa Dora Ferreira da Silva, que eternizou a serra em seus versos e deixou de herança os seus livros e sua propriedade para o seu neto. O pintor modernista Alberto da Veiga Guignard, que se refugiava nas montanhas para criar, tem suas obras eternizadas no Hotel Donati, inaugurado em 1931
e o poeta Vinícius de Moraes, que encontrou nesse território o silêncio e inspiração onde criou o poema Itaoca, nome dado a sua cabana. O território é urbano e consolidado: tem iluminação pública, coleta de lixo, atendimento de saúde, acesso por BR, transporte coletivo, etc. Não se trata de uma área isolada — é um território vivo, habitado, cuidado e organizado. Essa é a história da comunidade representada pela AAI: de quem transformou um projeto falido em um território de vida, cultura e conservação. De quem ficou quando outros foram embora. De quem cuidou quando o Estado não chegou. De quem ainda hoje luta, com dignidade por reconhecimento, permanência e justiça.